Eduardo Cunha presidente é derrota para o país, não apenas para Dilma

Pelos próximos dois anos, país não debaterá a fundamental reforma política e a urgente regulação dos meios de comunicação

Por Henrique Cézar

A presidenta Dilma Rousseff com certeza perdeu com a eleição de seu desafeto, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), para a presidência da Câmara dos Deputados, mas sem dúvida não foi a maior derrotada. Quando considerados os efeitos de Cunha como novo comandante da Câmara, pode se afirmar que quem mais sairá perdendo será o país.

A eleição do último domingo, 1º de fevereiro, data em que os 513 deputados federais e 27 novos senadores foram empossados no Congresso Nacional, pode ser analisada de vários ângulos, mas o primeiro passa por conhecer o novo presidente.

Amigo de Collor e Garotinho

Eduardo Cunha, radialista e economista, é um dos parlamentares mais conservadores do Congresso Nacional. Já foi aliado de Fernando Collor de Melo, quando em 1989 coordenou o caixa de campanha do então candidato a Presidência da República no estado do Rio de Janeiro. Também caminhou junto de Antony Garotinho e tornou-se presidente da Companhia Estadual de Habitação, mas deixou o cargo em meio a escândalo de corrupção. Antes disso, comandou a Telerj, companhia telefônica do Rio de Janeiro, também sendo afastado por acusações de corrupção, como apontado em artigo de Mauricio Moraes, na revista Carta Capital.

O líder dos descontentes

Deputado Federal desde 2002, Cunha já foi comparado com Frank Underwood, personagem vivido por Kevin Spacey na série House of Cards. Na trama, Underwood é um ambicioso e hábil congressista americano que não mede esforços para conquistar seus objetivos.

Desde quando assumiu o posto de líder do PMDB na Câmara, Cunha começou a se transformar no principal articulador de um grupo denominado ‘blocão’, reduto de parlamentares descontentes com o governo Dilma Rousseff e dispostos a cobrar favores em troca de votos. Durante a campanha eleitoral do ano passado, Cunha articulou doações de grandes empresas para diversos parlamentares, consolidando-se líder de um expressivo grupo.

O espelho do conservadorismo

Sua eleição na noite deste domingo, na verdade, começou a se desenhar logo após as eleições de 2014, quando constatou-se que a bancada conservadora havia avançado no Congresso, situação ilustrada com as expressivas votações de Marco Feliciano (PSC/SP) e Jair Bolsonaro (PP/RJ). Paralelamente, partidos de esquerda, casos de PT e PCdoB, por exemplo, perderam cadeiras.

O novo perfil conservador do parlamento, formado ainda por políticos sem identidade com movimentos e financiados por grandes setores econômicos ou igrejas, majoritariamente evangélicas, foi fundamental para garantir ainda em primeiro turno a vitória de Cunha – para ser eleito Presidente da Câmara em primeiro turno eram necessários 257 votos, sendo que Cunha obteve 267.

Retrocesso na Câmara, retrocesso na democracia

O novo presidente é contra a criminalização da homofobia, a regulação dos meios de comunicação, a discussão do aborto, e também o debate a respeito da legalização das drogas. Em 2010, apresentou projeto de lei que criminalizava a heterofobia, já se posicionou a favor da redução da maioridade penal e defende que a atribuição de demarcar terras indígenas seja do legislativo, e não do executivo. Além disso, é forte defensor do financiamento privado de campanhas eleitorais.

Agora, presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha será o responsável por escolher as pautas que serão apreciadas pelos deputados, ou seja, nos próximos dois anos não teremos avanço algum em discussões importantes para o país. Demandas levantadas por grupos representantes de LGBTs, mulheres, movimentos sociais e outras minorias não terão vez.

Confesso que a situação econômica não é o que mais me preocupa para os próximos anos. Para um país que necessita fundamentalmente de uma reforma política e da regulação dos meios de comunição para afirmar sua democracia, ter o congresso mais reacionário da história constrói um cenário assustador.

Com Eduardo Cunha, a direita, o congresso reacionário e seus ódios ganham mais dois anos de mandato.

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